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Antigo Testamento

Antigo Testamento

Modelo

Definição e Natureza

O Antigo Testamento constitui a primeira parte da Sagrada Escritura e compreende os livros inspirados escritos antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. A palavra “testamento” traduz o termo hebraico berith e o grego diatheke, que significam “aliança” ou “pacto”. O Antigo Testamento, portanto, documenta a antiga aliança estabelecida por Deus com o povo de Israel, preparando o caminho para a Nova e Eterna Aliança em Cristo.

Como ensina o Concílio Vaticano I: “Estes livros do Antigo e do Novo Testamento, íntegros com todas as suas partes, […] devem ser recebidos como sagrados e canônicos, não porque, compostos pelo engenho humano, foram depois aprovados pela autoridade da Igreja, nem somente porque contêm a revelação sem erro, mas porque, escritos por inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor e como tais foram entregues à Igreja” (Dei Filius, cap. 2).

Cânon Católico do Antigo Testamento

O cânon católico do Antigo Testamento, definido solenemente pelo Concílio de Trento (Sessão IV, 8 de abril de 1546), compreende 46 livros, divididos tradicionalmente em:

  1. Pentateuco (5 livros)

    • Gênesis
    • Êxodo
    • Levítico
    • Números
    • Deuteronômio
  2. Livros Históricos (16 livros)

    • Josué
    • Juízes
    • Rute
    • 1 e 2 Samuel (1 e 2 Reis na Vulgata)
    • 3 e 4 Reis (1 e 2 Reis na Vulgata)
    • 1 e 2 Paralipômenos (1 e 2 Crônicas)
    • Esdras
    • Neemias (2 Esdras na Vulgata)
    • Tobias (deuterocanônico)
    • Judite (deuterocanônico)
    • Ester (com adições deuterocanônicas)
    • 1 e 2 Macabeus (deuterocanônicos)
  3. Livros Sapienciais (7 livros)

    • Salmos
    • Provérbios
    • Eclesiastes
    • Cântico dos Cânticos
    • Sabedoria (deuterocanônico)
    • Eclesiástico ou Sirácida (deuterocanônico)
  4. Livros Proféticos (18 livros)

    • Isaías
    • Jeremias
    • Lamentações
    • Baruc (deuterocanônico)
    • Ezequiel
    • Daniel (com adições deuterocanônicas)
    • Oséias
    • Joel
    • Amós
    • Abdias
    • Jonas
    • Miquéias
    • Naum
    • Habacuc
    • Sofonias
    • Ageu
    • Zacarias
    • Malaquias

A distinção entre livros protocanônicos e deuterocanônicos refere-se apenas à história de sua aceitação no cânon, não a diferenças em sua inspiração ou autoridade. Todos são igualmente inspirados e autoritativos.

Características Fundamentais

  1. Inspiração Divina

    • Autoria divina mediante instrumentalidade humana
    • Inerrância em tudo o que afirmam
    • Autoridade normativa para fé e moral
  2. Unidade Orgânica

    • Progressividade da revelação
    • Coerência interna apesar da diversidade de autores
    • Desenvolvimento consistente do plano salvífico
  3. Cristocentrismo

    • Preparação para a vinda do Messias
    • Prefiguração de Cristo e da Igreja
    • Promessas messiânicas progressivamente reveladas
  4. Valor Permanente

    • Não abolido, mas aperfeiçoado no Novo Testamento
    • Fonte perene de sabedoria e instrução moral
    • Testemunho da fidelidade divina às promessas

São Jerônimo afirmou: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (Comentário a Isaías, prólogo). Esta verdade aplica-se especialmente ao Antigo Testamento, que contém as profecias e figuras de Cristo.

Contexto

Conteúdo Doutrinal

Revelação de Deus

  1. Monoteísmo

    • Deus único, pessoal e transcendente
    • Criador de todas as coisas ex nihilo
    • Absolutamente distinto da criação
  2. Atributos Divinos

    • Onipotência, onisciência, onipresença
    • Santidade, justiça, misericórdia
    • Fidelidade à aliança apesar da infidelidade humana
  3. Providência Divina

    • Governo soberano sobre a história
    • Intervenção direta nos assuntos humanos
    • Ordenação de tudo para a salvação

Antropologia

  1. Criação do Homem

    • À imagem e semelhança de Deus
    • Dotado de alma espiritual e imortal
    • Constituído em estado de justiça original
  2. Queda Original

    • Pecado de Adão e suas consequências
    • Transmissão do pecado original
    • Necessidade de redenção
  3. Vocação Moral

    • Lei natural inscrita no coração
    • Lei mosaica como expressão da vontade divina
    • Chamado à santidade e obediência

Soteriologia

  1. Promessa de Redenção

    • Protoevangelium (Gn 3,15)
    • Aliança com Abraão e sua descendência
    • Profecia do Servo Sofredor (Is 53)
  2. Economia da Salvação

    • Eleição de Israel como povo de Deus
    • Pedagogia divina através da Lei
    • Preparação para a plenitude dos tempos
  3. Esperança Messiânica

    • Promessas da linhagem davídica
    • Profecia do Emanuel (Is 7,14)
    • Expectativa do Reino messiânico

Escatologia

  1. Juízo Divino

    • Retribuição dos atos humanos
    • Dia do Senhor anunciado pelos profetas
    • Purificação e restauração de Israel
  2. Ressurreição

    • Testemunhos em Daniel e 2 Macabeus
    • Desenvolvimento progressivo da doutrina
    • Esperança na vida eterna
  3. Reino Messiânico

    • Nova Jerusalém
    • Reunião das nações
    • Paz e justiça universais

Desenvolvimento Histórico

Formação e Transmissão

  1. Composição

    • Período de aproximadamente mil anos (c. 1400-400 a.C.)
    • Diversidade de autores humanos e gêneros literários
    • Compilação e edição sob inspiração divina
  2. Tradição Textual

    • Texto Massorético (hebraico)
    • Septuaginta (grega)
    • Vulgata (latina)
  3. Cânon

    • Desenvolvimento gradual no judaísmo
    • Aceitação dos deuterocanônicos na Igreja primitiva
    • Definição solene no Concílio de Trento

Interpretação Patrística e Medieval

  1. Santos Padres

    • Leitura tipológica e alegórica
    • Ênfase no sentido cristológico
    • Harmonia entre os dois Testamentos
  2. Exegese Medieval

    • Teoria dos quatro sentidos da Escritura
    • Comentários escolásticos
    • Síntese teológica de São Tomás de Aquino
  3. Magistério Eclesiástico

    • Definições conciliares
    • Ensinamentos pontifícios
    • Tradição exegética católica

Erros Condenados

  1. Marcionismo

    • Erro: rejeição completa do Antigo Testamento
    • Condenação: diversos concílios primitivos
    • Resposta católica: unidade dos dois Testamentos
  2. Maniqueísmo

    • Erro: atribuição do AT a um deus maligno
    • Condenação: Santo Agostinho, diversos concílios
    • Resposta católica: bondade da criação e da Lei
  3. Protestantismo

    • Erro: rejeição dos livros deuterocanônicos
    • Condenação: Concílio de Trento, Sessão IV
    • Resposta católica: integridade do cânon tradicional
  4. Racionalismo e Modernismo

    • Erro: negação da historicidade e inspiração
    • Condenação: Providentissimus Deus, Lamentabili Sane, Pascendi
    • Resposta católica: afirmação da inerrância e historicidade

O Papa Leão XIII advertiu: “É absolutamente proibido, ou restringir a inspiração apenas a algumas partes da Sagrada Escritura, ou conceder que o autor sagrado tenha errado” (Providentissimus Deus, 1893).

Propósito

Aplicações Doutrinais

  1. Fundamento da Teologia

    • Fonte primária da Revelação divina
    • Base para a compreensão do Novo Testamento
    • Testemunho da progressividade da Revelação
  2. Apologética Católica

    • Defesa do cânon completo contra o protestantismo
    • Demonstração da unidade dos dois Testamentos
    • Refutação das interpretações heterodoxas
  3. Formação Dogmática

    • Bases veterotestamentárias dos dogmas católicos
    • Desenvolvimento da doutrina sobre Deus e o homem
    • Prefigurações dos sacramentos e da Igreja

São Tomás de Aquino ensina: “O Antigo Testamento é figura do Novo; o Antigo contém uma figura da glória celestial” (Summa Theologica, I-II, q. 107, a. 3).

Aplicações Morais e Espirituais

  1. Instrução Moral

    • Decálogo como fundamento da lei moral
    • Sabedoria prática dos livros sapienciais
    • Exemplos de virtude nos patriarcas e profetas
  2. Vida de Oração

    • Salmos como escola de oração
    • Modelos de contemplação nos profetas
    • Expressão de todos os sentimentos humanos diante de Deus
  3. Crescimento Espiritual

    • Tipologia como chave de leitura espiritual
    • Meditação das figuras de Cristo
    • Aplicação pessoal das lições morais

Santo Agostinho observou: “No Antigo Testamento está oculto o Novo, e no Novo Testamento está revelado o Antigo” (Quaestiones in Heptateuchum, 2, 73).

Implementação Digital

  1. Biblioteca Digital Católica

    • Texto completo do AT com notas católicas tradicionais
    • Comentários patrísticos e escolásticos
    • Documentos magisteriais relacionados
  2. Recursos para Estudo

    • Concordâncias e índices temáticos
    • Mapas, cronologias e material arqueológico
    • Análises tipológicas e prefigurações
  3. Aplicativos e Plataformas

    • Leitura guiada segundo o ano litúrgico
    • Meditações sobre passagens-chave
    • Material para Lectio Divina

“Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim.” (João 5, 39)

“Toda Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra.” (2 Timóteo 3, 16-17)